Engraçado que nunca fui estagiário. A vida me tirou do banco da escola diretamente
para o profissionalismo e se vão quase vinte anos desde que isso aconteceu. Dizendo
isso você pode estar pensando “mas como está escrevendo sobre este assunto se nunca
passou por isso?” Bem, eu não preciso ser um hobbit para escrever sobre a
Terra Média não é mesmo? A experiência destes anos todos levou-me a ter sob custódia
dezenas de estagiários os quais sempre tentei mostrar que aquele período de “molho”
era simplesmente uma etapa a ser transposta para o futuro de sua carreria. Neste
meio tempo aprendi com eles principalmente como não ser um estagiário. Quer ouvir
um pouco? Então vamos lá.
Um pouco de teoria chata
Pela atual legislação de nosso país (lei aprovada em 27/06/07
na Câmara dos Deputados)
o estágio é “o ato educativo supervisionado, desenvolvido no ambiente de trabalho,
que visa a preparação metódica para o trabalho de educandos que estejam frequentando
o ensino regular, em instituições de educação superior, de educação profissional
e de ensino médio”. Trocando toda esta fala bonita em miúdos, o estágio
é aquela educação dentro do ambiente de trabalho onde o futuro profissional irá
exercer sua profissão, servindo para que este possa colocar em prática o que está
ou esteve aprendendo no banco da escola, com supervisão de um mentor.
Dito isso alguns leitores poderão já dizer: “mas o estágio que conheço não é nada
disso, é trabalho forçado!”. Eu sei nobre colega. E não somente eu, mas parece que
nossos legisladores também acordaram para o fato que muitas empresas estavam usando
o manto do estágio para mão-de-obra barata, principalmente por não incidirem vários
impostos e tampouco ser caracterizado vínculo empregatício com a empresa. Mas vamos
deixar de lado a questão legal e trabalhista do assunto pois ela pode ser vista
em vários sites na Internet
e também lendo o projeto de lei aprovado na Câmara. Vamos falar sobre o estagiário,
vamos falar de você.
Lembro-me ainda hoje de um dos melhores estagiários que comigo trabalhou. Garotão
ainda, tinha acabado de sair da faculdade. Boas notas, se virava bem no inglês e
no espanhol e tinha um “quê” de diferente de todos os que entrevistei. Alguma coisa
me dizia que ele seria futuramente um ótimo profissional e resolvi contratá-lo.
Na primeira semana de estágio, ainda meio fora de forma e duro no teclado, faz um
DELETE FROM tabela sem uma cláusula WHERE. Resultado: todo o banco de dados de um
dos nossos clientes desapareceu em questão de segundos. Branco como vela, veio me
contar sua proeza e saber como poderia voltar atrás, mas já tendo a certeza que
estaria no olho da rua. Ao contrário do que pode-se imaginar, somente recuperei
um backup com os dados e expliquei que quando se apaga, tem-se dizer o que está
se apagando. Para encurtar a história, nunca mais cometeu o mesmo erro, aprendeu
e hoje é um profissional que tenho o prazer de, sempre que posso, carregá-lo comigo
para trabalharmos juntos.
Voltando da historieta, muitos estudantes odeiam estágio. Alguns inclusive tentam
tudo para não estagiar. Acham que é uma grande besteira e somente uma imposição
da instituição de ensino que frequenta. Longe disso, o estágio é o “warm-up” de
uma carreira e quando bem aproveitado (e supervisionado) pode se tornar um perfeito
laboratório principalmente para aprender como fazer e como não fazer as coisas.
Desta forma, o aproveitamento do estágio não é somente uma questão de “cumprir horas”,
mas sim poder estar na tenra idade diante de bons (ou maus) profissionais que irão
balizar aquilo que irá fazer no futuro. E o que você, como estagiário pode fazer
para tornar este treino uma pole-position?
Seja responsável
Claro que as baladas, viagens e oportunidades de paqueras mil fazem a cabeça de
qualquer garoto pirar. Esta é a época do deslumbre, do descobrimento, da experimentação.
Mas responsabilidade deve ser o primeiro ponto a ser levado em questão quando se
está estagiando. Tire da cabeça que por não existir um vínculo empregatício com
a empresa que você é turista e pode entrar ou sair a hora que bem entender. Também
existem tarefas que devem ser feitas e nós, profissionais, pouco queremos saber
se por causa de um porre da noite anterior você não terminou determinado código.
Isso é problema seu e que está criando um outro problema. Então meu amigo, responsabilidade!
Se quer passar o fim de semana na orgia com aquele monumento que conheceu numa balada,
sem problema nenhum. Mas não se esqueça que na segunda-feira seguinte estão esperando
você no escritório, mesmo que seja numa maca.
Mas a responsabilidade vai muito além disso. Ela passa também pelas questões de
informações sigilosas, dos equipamentos que usa e até mesmo pelo que escuta nos
corredores. Sempre fique atento no que está fazendo e pense sempre se são corretas
suas atitudes. Estágio não é playground, é trabalho e futuro (o seu).
Aquele que é responsável possui pontos muito grandes sobre o gênio indomável. É
uma pessoa que pode-se contar sempre e que não precisa ser monitorada constantemente.
Mas cuidado, ser responsável não é ser escravo. Jogue limpo para que joguem limpo
com você em todas as oportunidades. Faça a sua parte com responsabilidade e aprenda
a falar não quando não existe como fazer algo. Milagre é coisa rara até mesmo para
os mais fervorosos.
Não tenha vergonha
Você não é um profissional e por isso não é obrigado a saber tudo. Aliás, mesmo
os profissionais de longa data não sabem tudo. Diante deste fato não tenha vergonha
de dizer “não sei” e inclusive aproveite este “não sei” ao seu favor: “eu não sei
como se faz isso, mas vou procurar aprender para lhe dar uma resposta”. Com isso,
fica caracterizado que você é honesto e também interessado em solucionar os problemas
que aparecem em sua frente.
Fuja dos chavões “isso é fácil” ou “isso é bico”. Um pequeno código pode se tornar
uma dor de cabeça tremenda e você ficar em falta com sua palavra. Dê sempre certeza
no que fala, mesmo que seja para “não sei”. É preferível um não sei com 100% de
certeza do que um “eu sei” com 50%.
Comporte-se
No mundo da programação não é raro ver empresas que aceitam profissionais de todas
as tribos. Cabeludos, nerds, roqueiros, almofadinhas e todo o tipo de expressão
pessoal. Mas convenhamos, não é nada legal você estar em uma empresa onde todos
usam gravatas e você aparecer de skate e camiseta do Sepultura. Nada contra, cada
um tem seu jeito e sua forma de ver o mundo. Mas se você não suporta um terno, não
invente de trabalhar em uma companhia onde este é o “uniforme” do dia-a-dia. Procure
uma que aceita seu jeito de ser (ou que incentive, inclusive) para que possa fazer
sua parte sem pressão de todo mundo comentando sobre o “maluco de TI”.
O comportamento não é só a vestimenta, mas também aprender a falar e ouvir. Nada
mais chato que aquele contador de vantagens, piadas ou pior, de casos. A empresa
não é mesa de bar e alguns de seus colegas podem até achar engraçado na primeira
vez. Depois, começa a se tornar chato e sua imagem horrível. Cuidado com o que fala
e para quem fala. Seu superior não é “meu” e tampouco “mano” e a secretária do departamento
não é “aquela gostosa”. As pessoas possuem nomes e títulos que, aceite você ou não,
devem ser respeitados. Ou você gostaria que seu estagiário o cumprimentasse: “aí
mano, certo?!” Coloque-se na posição deles no futuro pois certamente lá estará.
Curiosidade não mata o gato
O que mais prezo numa pessoa é a curiosidade. O questionamento do “por quê” determinada
coisa é assim e não assada fez com que tenhamos hoje telefones, carros, aviões,
satélites e tudo o que a vida moderna nos proporciona, sendo certamente a grande
mola das invenções humanas. Via de regra quando se está na etapa do estágio, se
é jovem com todo o gás. Então o necessário é dar vazão a este gás de uma forma direcionada,
aproveitando o conhecimento daqueles que já estão na estrada há mais tempo e questionar,
perguntar sempre.
A maioria dos estagiários toma uma atitude passiva diante de tudo aquilo que é apresentado,
se tornando então um robô. Vá além disso, querendo saber como seu colega chegou
a determinado objetivo, que caminhos traçou, como transpôs os obstáculos e anote
tudo. Esta bagagem será de grande valia em seu futuro como profissional.
Ser curioso não é visto como um problema, mas sim como uma qualidade pouco aproveitada
nos dias de hoje. Entretanto tome cuidado com a dose. Algumas coisas não se deve
perguntar pois o nível de responsabilidade ou ainda os perigos existentes no conhecimento
sobre determinado assunto podem lhe trazer problemas.
Aproveite-se da empresa
A maioria das empresas (principalmente em TI) possuem uma vasta literatura técnica
e também uma profusão de softwares que você pode estudar e ampliar seus conhecimentos.
Algumas delas inclusive incitam seus estagiários a estudar além do que a escola
ensina, seja por meio de cursos de idiomas, certificações ou ainda cursos internos.
Participe de tudo, mostre interesse e amplie seus conhecimentos. Aproveite-se destas
oportunidades para melhorar seu curriculum e ampliar suas oportunidades no futuro.
Mas aproveitar-se não quer dizer que você pode pegar aquele manual do Counter Strike
e imprimir naquela maravilhosa laser colorida em alta resolução. Isso é falta de
responsabilidade. Da mesma forma, não faça cópias de softwares que não permitem
cópias e tampouco instale em sua máquina aplicativos que não são aceitos. A questão
de segurança é muito importante dentro do mundo corporativo e não é feita para dar
emprego para determinados profissionais. Esqueça o regojizo de usar a rede corporativa
como seu centro de downloads de filmes e músicas. É melhor pegar a grana do estágio
e pagar uma linha DSL em casa e deixar sua máquina o dia todo fazendo download (lembra-se
da responsabilidade?).
Crie sua rede de contatos
Também conhecido como networking, a rede de contatos é aquela que lhe trará as melhores
oportunidades e posições no futuro. Acredite, ela realmente funciona tanto para
o lado bom quanto para o lado ruim. Se você é um bom profissional, competente e
responsável, certamente seu ex-colega de trabalho ou superior tecerão as melhores
palavras sobre você quando precisar usá-los como referência. Mas se ao contrário
disso os defeitos superam em muito as qualidades, pode ter certeza que terá que
mudar de cidade. Neste aspecto o dito popular que notícia ruim é mais rápida que
rastilho de pólvora cabe com perfeição.
Cuidado! Rede de contatos não é Orkut e tampouco Facebook. Se você quer criar uma
rede de contatos online, use uma das várias corporativas existentes. As anteriormente
citadas servem mais para fofoca do que qualquer coisa. Ademais, não é colecionando
figurinhas num site que se cria uma rede de contatos. É necessário efetivamente
ter contato com a pessoa, ligar em seu aniversário, convidar para um happy-hour
ou almoço, se fazer presente. Da mesma forma, ser solícito quando necessário é algo
que sempre conta e também muito lembrando no momento de uma recolocação. Ninguém
vai deixar de falar que você sempre ajudou, sempre apoiou e sempre foi “pau prá
toda obra”. Somente tome cuidado para não se tornar um verdadeiro puxa-saco. Estes
morrem afogados.
E no frigir dos ovos
Se você quer realmente ser um profissional, aja como tal. Uma pesquisa realizada
por um dos maiores grupos de RH do país em 2004 mostra que somente 6% dos estagiários
são efetivados. O problema: falta de profissionalismo. O estágio deve ser visto
como parte de sua carreira e não somente como uma tarefa a ser executada. Tenha
paixão no que faz e faça bem feito. O mercado procura bons profissionais e estes
muitas vezes são ou foram estagiários comprometidos não somente com o que trabalham,
mas também com tudo a sua volta. Se você não faz a sua parte, infelizmente não podemos
fazer a nossa.
Sucesso!
* Paulino Michelazzo é desenvolvedor web desde 95 e escreve
com regularidade para vários canais na Internet e revistas nacionais e internacionais.
Atualmente é Systems Developing Specialist na missão da ONU – Organização
das Nações Unidas no Timor-Leste.